sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Loucos e Indesejáveis


"Nossa loucura é a mais sensata das emoções; tudo o que fazemos deixamos como exemplos para os que sonham um dia serem assim como nós: LOUCOS... mas FELIZES!!!"
- Mario Quintana.

 Capitulo I: Só um reflexo.
Todos podemos nos arrepender de certos atos que cometemos com nossas mãos. Podemos nos arrepender de certas palavras, que às vezes dizemos ser a verdade, mas não passam de uma amarga mentira. E tem certos loucos, que se arrependem até do que não fizeram. Arrependem-se pelos outros e encaixam as peças do quebra-cabeça no lugar errado. Mas a nossa história nos define, derruba e capacita, acreditamos no poder do destino, e ele nos mostra como somos de certa forma, tolos.
Seunome não acreditava em destino. Acreditava que a culpa do que acontecia na vida das pessoas era das mesmas. Acima de tudo acreditava que tudo que havia acontecido em sua vida, era sua culpa.
Hoje, ela estava sentada, em sua varanda, um ano depois de seus pais terem morrido em um acidente de avião. Na sua mão ela segurava um copo de limonada e com a outra segurava seu peso. A sua frente estava seu namorado, Kenny, ou Kennedy, como odiava ser chamado.
Kenny estava brincando com o cadarço do tênis de Seunome, enquanto ela o observava. Lá estava ele, com suas mechas loiras caindo sobre seus olhos azuis. Seus pequenos olhos, brilhantes como as mais belas estrelas.
Se os olhasse de longe, pareceria apenas um casal em uma varanda, calados se amando, mas se realmente observasse a expressão de Seunome perceberia que ela estava em outra realidade.
Realmente sua realidade era outra, para alguém que havia passado cerca de sete anos da sua vida em um hospício aquele era o dia mais normal da sua vida. Não foram sete anos seguidos, foram anos divididos em períodos. Seu ultimo período durou até ano passado, quando seus pais morreram.
Os motivos pelos quais ela passou metade de sua vida em um hospício são diversos, mas totalmente sem nexo. O principal deles, uma traição. Não por parte dela e sim de seu pai, que a subornava para que não contasse a sua mãe, mas ela o faria; sim ela contaria. O verdadeiro problema é que quando se é criança os adultos decidem por você. Sendo assim, seu pai a colocou em um hospício para que “melhorasse sua sanidade mental”. Mas não era bem assim.
Anos em um lugar desses a fez conhecer muitas pessoas; de depressivos a seriais killers. Uma de suas “amigas” nesse maravilhoso mundo perturbado era Jessica. Uma garota esquizofrênica que esfaqueou Berry, seu ursinho de pelúcia, cerca de três vezes. Jessica alega que só fez isso porque havia uma câmera no olho do brinquedo, mas, cá entre nós, era apenas um olho.
Depois disso Berry foi enterrado, porque Seunome achou que duas cirurgias já tinham sido o suficiente.
Durante o tempo em que ela passou fora do hospício, ela teve oportunidade de conhecer pessoas normais, e agir como uma delas. Mas Seunome era diferente, e isso não aconteceu. Ela era uma menina estressada, e embora fosse inteligente, se tivesse que resolver algum conflito seria com seus punhos. E em outros tempos, teve a “oportunidade” de roubar um carro e sair andando com ele, até que, por uma infeliz coincidência, uma árvore entrou em seu caminho.
Estas foram apenas algumas de suas pequenas desventuras, e apenas alguns de seus vários problemas. Neste momento ela enfrentava o maior deles. Ela mesma.
-Tenho que ir.
Seunome ouviu uma voz dizer e foi tirada de seu profundo momento filosófico.
- O que? - ela perguntou confusa.
- Eu tenho que ir embora, bebê, tenho um trabalho para terminar.
- Ah... Fica mais um pouco; só mais um pouco. Por favoooor. - Seunome disse com voz manhosa.
- Ta bem, só mais um pouco. Mas antes, posso ver um negócio no seu computador? - Kenny disse com voz calma e um sorriso que fazia Seunome querer dar tudo a ele.
- Pode. - Ela respondeu sorrindo, já que ele ficaria.
Seunome se sentia sozinha naquela casa enorme. Seus pais eram extremamente ricos em vida, e por esta causa, deixaram a seus filhos uma grande fortuna.
Por se sentir sozinha, mesmo com tantos empregados, ela gostava da companhia de seu namorado, mas este trabalhava muito durante a semana, então ela só o via aos finais de semana.
Assim, Seunome e Kenny subiram até seu quarto. Ao entrarem, ela se jogou na cama e ele se sentou em sua cadeira, a frente de seu computador.
Enquanto ele fazia sabe-se lá o que no computador, Seunome observava as paredes de seu quarto, e as memórias de sua infância tilintavam na sua cabeça. Lembrava-se, que naquele mesmo quarto, já havia lido seu primeiro livro, brincado com suas primeiras bonecas e derrubado suas primeiras lágrimas.
Tudo parecia estar lá, cada memória a chamava em um vôo suave dentro do quarto. Mas tudo estava morto. Memórias passadas que não voltariam, mas corriam o risco de se repetir.
Nostalgia era bom, mas não era o que ela queria. Sacudiu a cabeça algumas vezes até conseguir se focar no que era real para ela naquele momento. O menino que estava no quarto era real. Logo após conseguir se concentrar caminhou até ele e o abraçou pelas costas. Ao perceber o toque de suas mãos, pequenas, porém não tão delicado assim, Kenny virou sua cabeça para o lado e com um leve sorriso depositou um selinho nos lábios da menina.
Olhando para ela tudo parecia pequeno. Seus olhos azuis, e pequenos. Seus lábios arredondados e fofos, pequenos. Seus pés, pequenos. No geral ela era pequena. Tão frágil quanto uma bonequinha de porcelana. Ao olhar para ela, Kenny sabia que tudo que queria era protegê-la, mas sabia que não podia cuidar nem de si mesmo.
- O que esta fazendo? - Seunome perguntou a seu namorado.
- Olhando o site da faculdade que quero fazer. Está vendo? - ele disse apontando para a tela do computador – Fica na Bélgica. É para lá que eu vou; daqui a seis meses, se eu tiver sorte. - ele concluiu com um sorriso no rosto.
- É... Eu me lembro. Você já me disse isso algumas vezes. - Seunome respondeu um pouco contrariada embora tentasse sorrir.
Era isso. Seus dias com o seu namorado estavam contados. A muito tempo atrás, no começo da relação, ele havia lhe contado que iria para Bélgica um dia, para fazer faculdade. Hoje Seunome notou o quanto este dia esta perto.
Ela queria realmente se sentir feliz por ele e apoiá-lo, mas não conseguia, e se sentia extremamente egoísta por isso. Não se sentia feliz porque ele iria partir e deixá-la sozinha, em um mundo onde ela não consegue ser feliz sem ele, pelo menos é isso que ela pensa. Quanta inocência.
Mesmo assim, ela tenta deixar seus sentimentos de lado e apoiá-lo. A felicidade dele importa também, e ela sabe disso.
- Vou sentir tanta saudade. - ele disse encostando a testa na da garota,  que agora estava em seu colo.
- Também vou. Muita. - Seunome respondeu colocando toda sua tristeza para fora com simples 3 palavrinhas.
- Mas vai passar rápido, e eu prometo que quando eu voltar eu te levo naquela confeitaria que você gosta e compro quantos bolos você quiser. - Kenny respondeu um pouco brincalhão.
- Esta bem, e eu vou te ligar todas as noites para te contar quantos espelhos eu quebrei. - ela respondeu no mesmo tom.
Por um momento os dois se olharam, sorrindo levemente, mas verdadeiramente.
Aquilo era o importante, um fazia o outro feliz, e isso bastava.
Mas será que se faziam tão bem quanto precisavam?
Aproximaram-se lentamente, até poderem sentir que foram parados, por um toque único e delicado, que ambos conheciam.
Um beijo.
Longo e suave.
Um momento mágico, que todos já experimentamos ou experimentaremos, sendo mágico apenas se for com alguém que você ame. A pessoa pode até ter gosto de cebola, de Halls, quem sabe gosto frango, mas se você a amar, um beijo com ela sempre valerá apena.
Então foram interrompidos por uma leve vibração no bolso do rapaz. Era seu celular.
- Oh shit! - Kenny disse olhando para o celular.
- O que é?
-Minha mãe me mandou uma mensagem, eu tenho que ir para casa, ela vai sair e precisa que eu fique lá.
- Ah, ta bem. Seunome disse um tanto entristecida.
- Desculpa Seunome... Eu queria mesmo ficar aqui, mas não posso.
- Tudo bem fofo, eu entendo.
- Ta bem minha linda. Te amo, e eu prometo que volto assim que puder. Tá bem?
- Tá bem - Seunome respondeu com as bochechas levemente coradas.
Kenny sorriu e a abraçou. Logo após outro pequeno beijo surgiu entre eles.
Ele pegou suas coisas, olhou para trás, mas uma vez com um sorriso triste no rosto, acenou e partiu.
Seunome ficou sentada no chão de seu quarto, pensando e relembrando sobre como havia sido o dia de hoje.
Ela havia encontrado Kenny no parque, depois haviam comido cachorros-quentes de almoço e em seguida caminharam e assustaram os pombos do parque.
Depois haviam ido para a casa dela, assistido o filme “Homem-aranha” pela terceira vez e depois foram para a varanda, onde passaram um tempo fazendo nada.
Havia sido um bom dia em sua opinião, não havia começado muito bem, mas acabara de um jeito agradável.
Flashback mode on:
O dia estava claro, e o sol batia forte em meu rosto. Acordei com ele nos meus olhos. Sol inconveniente!
Levantei-me e olhei que horas eram, 8:34 da manhã. Por que acordei tão cedo? Será que fora por conta dos pesadelos que tive?
Bem, sei lá. Caminhei até o banheiro e passei uma água no rosto. O chão estava extremamente gélido. Enquanto olhava para meus pés me lembrei que teria um pequeno compromisso na hora do almoço, e deveria me arrumar logo.
Despi-me e percebi o quanto de maturidade faltava no meu corpo infantil, em especial nos meus seios.
Entrei na banheira e deixei a água me dominar, era bom me sentir relaxada, mesmo que não merecesse.
Ao sair do banho coloquei uma roupa casual. Uma blusa amarela (minha cor preferida) , e uma saia branca. Na blusa havia também um desenho de uma nota musical em  vermelho. Qual nota seria?
Resolvi me olhar no espelho - a tempos não fazia isso -, mas meu psicólogo vive a insistir que eu deveria tentar fazer isso.
Me aproximo do monstro. Dou passos lentos e cuidadosos. Lá está ele, tampado com um pano. Eu paro. Por um instante observo meus pés. Anda logo sua covarde, ordeno a mim mesma, do que você tem medo?
Dela.
E só quando puxo o pano de cima do espelho é que a vejo. Lá esta ela; me observando com aquela expressão de psicopata e suas roupas sujas. Mãos sedentas de sangue, sorriso sínico e uma faca em uma das mãos.
O que ela vai fazer com aquela faca?
Não, ela não vai fazer nada, ela já fez.
O que ela fez?
A pergunta é... O que você fez?
Não. Não pode ser eu.
Tem certeza?
Meu Deus! O que foi que eu fiz? O QUE FOI QUE EU FIZ?
Matou eles.
Por um momento deixo a raiva me possuir.
- SEU MONSTRO!  - eu grito.
Não posso suportar. Caminho para mais perto do espelho e começo a socá-lo.
Nossa, como isso dói. Mas não tanto quanto a dor que lhes causei.
Um soco.
Dois.
Três.
Isso bate nela.
Dez socos talvez.
- NÃOOOOOOO! - eu gritei novamente. Prossegui, agora de joelhos e deixando que as lagrimas dominassem meu rosto – Por que você fez isso?... Por que matou eles?...  Ele... Ele me disse que ficaria tudo bem...! Por que mentiu para mim?P-por que?...
- Seunome o que você está fazendo? - Sarah disse agora entrando em meu quarto com uma expressão desesperada.
Flashback mode of:
Seunome passou a mão no rosto sentindo que algumas minúsculas lágrimas caíam de seus olhos novamente. Fora um dia de muita "água".
Ela olhou a sua volta. Estava sozinha de novo. Encarou suas próprias mãos, encontrando-as enfaixadas devido ao seu “acidente” com o espelho, como ela disse a todos.
Era óbvio que todos sabiam que era mentira, mas e daí? Sua vida inteira não passava de uma mentira e ela não estava reclamando.
- Por que ele estava aqui?
Seunome ouviu uma voz dizer e olhou para a porta. Era Sarah, uma das empregadas.
Esta mesma empregada conhecia Seunome desde bebe, e sempre convivera com ela, por esta razão não tinha o mínimo medo dela; na verdade se fosse preciso, Sarah seria capaz de dar uma sova com suas mãos de tábuas, como Seunome gostava de chamar, pois estas doíam muito.
- Ele estava fazendo uma pesquisa. - Seunome respondeu rapidamente.
- Já disse que não gosto deste rapaz, muito menos no seu quarto.
- Não sei o que você tem contra ele.
- Contra ele nada, só que você é uma criatura sem juízo, é fácil lhe passar a perna.
- Tá dizendo que ele namora comigo só por interesse?
- Não, mas é uma possibilidade. Vê se abre o olho menina e me obedece, porque se você ficar grávida antes da hora não sou eu quem vai cuidar da criança.
- Não fale essas coisas. Kenny me ama, não faria isso comigo.
- Só porque ele te disse isso não quer dizer que seja verdade. - Sarah disse seca, depois continuou: - Olha, não estou dizendo que ele é uma má pessoa, e nem que ele não te ama, mas por favor me escute, eu me arrependo de não ter ouvido a minha mãe, só não quero que você destrua sua vida.
- Em primeiro lugar a minha vida já está destruída, e em segundo lugar eu sei me cuidar sozinha. - Seunome respondeu já cansada do assunto.
- Falou a menina que socou o próprio reflexo. - Sarah disse sarcástica.
- Sarah! - gritou Seunome indignada.
-Está bem, está bem. Parei. Só entenda, eu não estou só te enchendo o saco, estou te alertando, abre o olho menina.
-Ok, já entendi.

Assim uma conversa muito estimulante acabou, com Sarah voltando ao trabalho e Seunome voltando ao seu trabalho, que era não fazer nada.

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